Detectives Selvagens 0 - Julho 2014 | Page 35

A AUSÊNCIA É UM REVÓLVER CARREGADO onde tinha vindo. Abri a porta que me parecia ser a certa e estava a Helena a entrar na banheira, nua claro, e eu vi-a da cintura para cima, graças ao espelho. Nunca contei isto a ninguém. Nem sei bem como descrevê-las: perfeitas seria um eufemismo, mas acho que é assim que as guardo na memória. Acho que fiquei apaixonado pela Helena durante algum tempo. Parecia ser mais interessante que as miúdas da minha escola nessa altura, talvez por ser mais velha. Agora é diferente. Não tenho namorada, se é isso que queres saber, mas até podia ter se quisesse. O problema é que não sei bem se quero, para quê, tenho de pensar nisso. Talvez seja como muita coisa na vida: uma pessoa experimenta e pensa como é que vivi a minha vida toda sem isto? Acho que é isso que me mete medo: perceber o que perdi para trás, perceber que não viverei sem algo daqui para a frente, especialmente se depois as coisas não correrem bem e mais nenhuma rapariga quiser namorar comigo. O Bruno sempre teve namoradas: pelo menos é assim que me recordo dele, quando morava lá em casa. Às vezes levava algumas para casa e dava-me dinheiro para ir jogar nas máquinas. Jogava um jogo estúpido com um macaco que cuspia umas bolas, agora que penso nisso era realmente estúpido. O jogo de futebol era mauzinho, e estava sempre ocupado. Não gostava assim tanto de jogar nas máquinas, preferia ficar no quarto, mas saía na mesma: assim eles ficavam sozinhos. Às tantas, quando o Bruno 35